quarta-feira, 1 de abril de 2015

Conflitos na Escola

Impor limites e educar pessoas em desenvolvimento é uma missão naturalmente conflituosa. Além disto, a transição da infância para a adolescência é marcada por um confronto natural com os adultos e a sociedade. O professor deve estar preparado para lidar com estas situações.
1. Atitudes de risco.
Alguns comportamentos do professor podem originar conflitos na escola. Situações duvidosas ou atitudes de má aparência podem abalar a credibilidade do educador. Vamos analisar a seguir algumas situações comuns na escola que devem ser melhor refletidas.
a) Proximidade física ou intimidade com alunos.
É natural que professor e aluno tenham proximidade física e carinho mútuo. Isto é benéfico para a educação. Porém, o educador não deve se exceder. Aluno sentar no colo de professor, abraços intensos e demorados, toques no corpo do aluno, entre outras atitudes, podem levantar suspeitas das pessoas, inclusive da família do aluno. Além disto, crianças e adolescentes podem confundir o real significado desta proximidade física.
O professor deve evitar ficar sozinho com um aluno em sala de aula ou local isolado. Se isto ocorrer, a proximidade física deve ser evitada ao máximo. Imagine alguém entrar na sala de aula e ver o professor abraçando aluna. Ainda que seja o final de um cumprimento social, a impressão será de algo suspeito.
Professor não deve manter relacionamento íntimo com aluno. Infelizmente, este fato tem se tornado frequente em escolas. É bom esclarecer que qualquer intimidade com aluno menor de 14 anos de idade é crime, mesmo sem relação sexual. Ainda que o aluno ou aluna seja maior de 18 anos e consinta em ter intimidade com professor ou professora, isto é absolutamente desaconselhável, pois gera perda de autoridade e confiança nos educadores. Afinal, se quem deve educar tem desejo sexual pelos educandos, a Educação é desmoralizada.
Caso real – Certa vez, fui convidado a palestrar em uma escola de ensino médio, e a diretora me fez o seguinte pedido: “Dr. Schelb, por favor, convença os professores a não transarem com alunas, pois estamos com nossa autoridade muito abalada em função disto.”
 b) Fatos da intimidade dos alunos (e famílias).
O professor deve manter sigilo de todas as informações sobre a intimidade do aluno e sua família. Apenas as pessoas que tiverem autorização legal poderão conhecer os fatos. A revelação da intimidade de aluno (ou de sua família) a terceiros, pode configurar crime1.
Caso real – Desconfiando que a aluna estava sendo vítima de abusos sexuais, a professora comentou sobre o fato em reunião com outros professores, expondo indevidamente a intimidade da adolescente. As informações chegaram ao conhecimento dos demais alunos, que começaram a humilhar a colega.
Informações que aluno trouxer à direção ou a professores sobre atos de indisciplina (e crimes também) na escola, também devem ser cuidadosamente mantidas em segredo.
Caso real – A aluna revelou ao professor que uma uma quadrilha de alunos traficantes agia na escola. O líder era um colega de sala, pessoa violenta e perigosa. Em reunião de coordenação, o professor revelou a várias pessoas o nome da aluna que lhe forneceu as informações sobre o ilícito.  Ela teve que se transferir para outra escola.
A atitude do professor foi equivocada, e revela grave negligência com a proteção de alunos que cooperam com a escola. 
c) Piadas e linguagem relaxada
O professor deve refletir muito antes de dar apelido ou fazer piadas sobre um aluno ou seus familiares. Várias circunstâncias podem levar os colegas a perseguir ou humilhar o aluno em razão desta atitude do educador.
Caso real – A professora elogiava o melhor aluno da sala com o carinhoso apelido de “cabeção”. Os colegas começaram a fazer chacota dele com o apelido, humilhando-o profundamente. Para a educadora o apelido estava associado à inteligência e méritos do aluno, para seus colegas, a uma deformidade física.
Elogios em excesso também podem prejudicar. Quando um professor elogia muito um determinado aluno, os demais estudantes podem ficar enciumados. Além disto, podem querer agredir o aluno como forma de atingir o professor. Isto ocorre com muita frequência em locais de reunião coletiva (prisões, etc.).
Caso real – O funcionário da Procuradoria da República foi condenado pela prática de homicídio. Recolhido à penitenciária, sua esposa me procurou, pedindo para que eu fosse visitá-lo. Não atendi ao pedido por uma razão bem prática: “no momento em que os demais presos soubessem que ele conhecia uma autoridade, passariam a persegui-lo ferozmente.
É muito importante refletir também sobre comentários em linguagem relaxada. Desabafos emocionais, ainda que apenas entre colegas de trabalho, não são aconselháveis. No futuro, alguém pode se aproveitar destas palavras ditas em momentos emotivos para prejudicar o professor.
Caso real – Em um momento de desabafo, a professora disse a um colega da escola, “ah! Que vontade eu tinha de esganar este aluno folgado”. Não era sério, mas uma forma de expressar a indignação diante do comportamento indisciplinado do aluno. Meses depois, convocado para depor em processo legal, o professor declarou haver presenciado a professora dizer que “tinha vontade de esganar o aluno”, sem contextualizar as circunstâncias em que a frase foi dita. A impressão que ficou é que a professora realmente tinha a intenção de fazer mal ao aluno, o que não era verdade.
Até mesmo a forma de tratar os colegas deve ser refletida. Há brincadeiras ou comentários que podem gerar muitas controvérsias.
Caso real – A professora processou a diretora da escola, alegando humilhação e preconceito racial. De fato, comprovou-se que a diretora chamou a educadora de “macaca”, durante uma reunião de professores. Não se sabe ao certo, a verdade, pois a diretora afirmou que sempre a chamava assim, mas sem nenhum preconceito, apenas como uma forma íntima de tratamento. Não adiantou, a justiça a condenou a pagar indenização por danos morais.
  1. 2. Conflitos na escola
Os conflitos na escola ocorrem basicamente entre professores, alunos e famílias.
a) Conflitos com alunos
Já abordamos uma parte deste tema ao tratar das atitudes impróprias dos educadores. Agora vamos analisar o principal tema gerador de conflitos entre professores e alunos: as correções disciplinares.
Nem tudo o que desagrada o professor é indisciplina. É necessário estar preparado para lidar com o juízo crítico de alunos. Infelizmente, muitos educadores não aceitam que seus alunos o questionem ou pensem diferente, e punem como indisciplina os que ousarem discordar.
A correção disciplinar é dirigida ao aluno que praticou o ato indevido, mas ele jamais deve ser qualificado pela indisciplina que praticou. Explico. Se um adolescente praticou furto na escola, deve ser orientado e punido pelo ilícito, mas jamais chamado de ladrão. Se mentiu, deve ser advertido pelo ato, jamais chamado de mentiroso. Se é desinteressado nos estudos, deve ser conscientizado sobre sua atitude de prequiça, jamais chamado de preguiçoso. E assim por diante. Não é um jogo de palavras, pois assim agindo, concedemos uma chance ao aluno para o arrependimento e a transformação. Já ao chamá-lo de mentiroso, ladrão ou preguiçoso, dificultamos a reflexão e o estigmatizamos.
Sempre que possível, advertências disciplinares mais intensas devem ser feitas em particular. Há comentários que são legítimos se o professor os fizer em particular ao aluno, mas, ao fazê-los em público, constituem humilhação.
Caso real – Durante uma discussão em sala de aula, a professora disse ao aluno: “Você devia ser homem para assumir o que faz!”. Revoltado com a humilhação pública, o adolescente agrediu fisicamente a professora.
É relevante considerar a ‘influência da multidão’2. Tudo o que se fala em público ganha uma dimensão maior. Quando houver um conflito em sala de aula ou em local com aglomeração de alunos, é necessário isolar os exaltados dos demais membros do grupo, para evitar que todos se tornem agressivos.
Ao corrigir, é sempre melhor utilizar palavras brandas. É fundamental evitar o grito na escola. O grito é antessala da violência, pois gera uma alteração negativa de humor, especialmente a quem é dirigido. Professores (e pais) devem refletir sobre a frequência com que gritam com seus alunos (e filhos). Se o grito é resultante da perda do controle emocional (impaciência, raiva), devem mudar de atitude. É abuso moral a prática de gritos intensos com aluno.
É claro que há momentos em que o grito é necessário e pedagógico. Neste caso, deve-se evitar ao máximo fazê-lo em público, ou na presença de terceiros.  Em sala de aula, se o professor for repreender aluno, jamais deve gritar. Aproxime-se do aluno e o discipline. A repreensão em público em si já constrange. O grito pode humilhar ou gerar reações emocionais e agressivas.
Neste contexto, é necessário refletir sobre a comunicação com crianças e adolescentes. A experiência revela que é mais importante dar atenção ao que a criança quis dizer do que às palavras proferidas por ela. Por isto, ainda que seja claro o que foi dito, é fundamental insistir com a criança para que explique sua intenção. Por exemplo, se uma criança diz “Professora, você é uma vaca”, é crucial que a educadora pergunte a ela “O que você quer dizer com isto?” Pode ser que a  aluna explique “amo as vaquinhas e amo você também.”. Embora o exemplo seja fictício, é surpreendente como as pessoas podem se expressar mal, inclusive crianças e adolescentes.
Explicar exaustivamente a medida disciplinar é muito importante também. Crianças e adolescentes, como qualquer ser humano, são muito sensíveis à injustiça. Se realmente praticaram o mal do qual estão sendo acusados, não se revoltam com as medidas disciplinares, ainda que exageradas. Mas, se a punição é entendida como injusta, ainda que seja uma advertência verbal, ficam profundamente revoltados. Por isto, é muito importante deixar bem claro as regras, e ao aplicar uma punição reafirmar o conteúdo da regra violada, estimulando o aluno a relembrá-la e compreendê-la.
Caso real – Em entrevistas com adolescentes violentos internados, é comum ver mais revolta com injustiças sofridas (não foram ouvidos,  foram punidos por algo que não fizeram, etc.) do que com punições severas que sofreram.
Aos policiais ensino o seguinte: “Você pode prender o autor de crimes e ele nunca mais se lembrar de você, ainda que seja condenado a muitos anos de prisão. Mas, se der um tapa na cara dele, ele nunca mais vai esquecer de você.”
O mesmo se aplica a professores: “Você pode aplicar uma medida disciplinar rigorosa ao aluno, e ele não se revoltar. Mas se humilhá-lo ou for injusto, ele nunca mais vai esquecer de você.” Devemos nos recordar do maior atleta olímpico, Michael Phelps. Ganhador de dezenas de medalhas olímpicas, concedeu uma entrevista coletiva ao final dos jogos olímpicos de Pequim (2008). Lembrando-se dos tempos de escola, chamou pelo nome a professora e disse: “Não sei onde você está, mas com certeza você sabe onde estou. Eu queria dizer, que você estava errada quando disse que eu não ia dar em nada!!!”
b) Conflitos com famílias
Lidar com famílias de alunos é sempre algo complexo. Em rigor, não seria exagero dizer que o professor está lidando com ‘material explosivo’. O humor volátil, as brigas familiares, as declarações do aluno, etc. podem repercutir intensamente no relacionamento com o professor.
Imagine a seguinte situação hipotética: o aluno chega em casa chorando e diz ao pai que “o professor me deu um tapa na cara”. Reflita um pouco. Como você acha que este pai vai reagir? (Como você reagiria se fosse o pai ou mãe ?) É quase certo que vai ficar muito bravo! Mas o fato é que o filho está dizendo algo que pode ou não ser verdade. A tendência natural das pessoas será dar crédito ao filho, sem sequer ouvir o professor. Isto é injusto, mas um fato cotidiano nas escolas. Denomino este fenômeno de embriaguez emocional, pois o pai ou mãe submetido a esta situação imediatamente é entorpecido e suas emoções se tornam quase incontroláveis. Por este motivo, uma orientação básica para os professores em conflitos com famílias é identificar quando está lidando com ‘embriagados’. Se houver, o ideal é não conversar diretamente com estas pessoas, mas, chamar alguém para intermediar o diálogo.
O professor deve evitar ao máximo falar mal da família para o aluno. Me refiro aqui a qualquer comentário negativo, ainda que pertinente e justo. Se houver problemas com a família do estudante, o professor deve falar diretamente com o pai ou mãe, mas longe dos olhos e ouvidos do filho. O aluno pode perder o respeito pelos pais, que ficarão enfraquecidos na disciplina e orientação dos filhos.
Importante, quando receber elogios de aluno ou família, peça para que enviem o cumprimento por escrito (e-mail). É muito bom registrar também os elogios.
Caso real – O professor foi acusado de abuso físico contra aluna. Na verdade, por um mal entendido, os pais foram levados a crer que o professor havia segurado a aluna pelos braços com excessiva força, e o acusaram de agressão física. Ao final do julgamento o Juiz absolveu o professor dizendo: “Milita em favor do educador o grande número de elogios e cumprimentos de alunos e familiares que o professor trouxe ao processo, demonstrando sua excelente conduta profissional.”
c) Conflitos entre professores
O convívio entre professores nem sempre é harmônico. Questões pessoais, políticas e até sindicais podem gerar muitos conflitos. É importante preservar os alunos destas situações de animosidade interna, sob pena de perda de autoridade para todos na escola.
Qualquer projeto de redução de violência ou conflitos na escola deve ter como pressuposto o apaziguamento dos conflitos entre professores, pois sem unidade não é possível combater adversários!
3. Conclusão
Apresento a seguir princípios e regras importantes para o professor ao lidar com conflitos na escola:
  • somente converse temas sensíveis com a família de aluno em reunião agendada e em local reservado. Muitos familiares abordam professores em sala de aula para tratar de assuntos da intimidade do aluno ou da família. Isto deve ser evitado. Assuntos sensíveis merecem um local reservado para conversar.
  • Antes de repreender, procure perceber o estado emocional do aluno e da família. É fundamental conhecer o estado emocional das pessoas com quem conversamos, especialmente quando há necessidade de correção disciplinar.
  • Ao receber solicitações extravagantes, solicite que a família o faça por escrito. No mínimo, metade deles vai desistir. Para os demais, você vai ganhar mais tempo para pensar o que fazer!!
  • Não ameace exercer seus direitos a alguém. Ao lidar com pessoas negligentes com seus deveres, não tente influenciá-las a agir corretamente por meio de ameaça de medidas legais cabíveis. As pessoas podem reagir precipitada e emocionalmente.
  • Se você for ameaçado ou agredido em razão de sua função de educador, jamais busque sozinho sua defesa. Solicite à direção da escola tomar as providências. Caso a instituição escolar não o faça, encaminhe solicitação de providências por escrito, lembrando que a proteção dos professores é função da escola e seus dirigentes, sob pena de responsabilidade civil (danos morais) e penal.
1Código Penal, art. 154 – Revelar alguém, sem justa causa, segredo, de que tem ciência em razão de função, ministério, ofício ou profissão, e cuja revelação possa produzir dano a outrem. Pena de até 1 ano de prisão ou multa.

2Influência da multidão é o conceito que engloba todo estímulo resultante da influência de uma coletividade sobre o comportamento imediato do indivíduo. Por exemplo, uma discussão em público, ainda que presenciada por poucas pessoas, configura este quadro, pois eleva o grau de intolerância e agressividade dos envolvidos.

fonte: http://programaproteger.com.br/novo/?p=449

Quem tem um “Zé” na sala de aula?


por Adalgisa Aparecida Alves Lacerda*

Recentemente, eu e minhas colegas em assessoria escolar, tivemos a oportunidade de trabalhar com um pequeno grupo de educadores (professores e funcionários de creches, Emeis e Emefs). Trabalhamos o texto intitulado “Tenho um Zé em minha sala”, e a partir da leitura e discussão, apontamos algumas questões para reflexão necessária em nossa profissão.
Resumindo, o texto é um relato da experiência de uma professora e seu aluno chamado Zé Antonio, que nunca parava quieto; rabiscava as atividades entregando-as incompletas; empurrava e mexias nos materiais dos colegas; falava nomes feios, enquanto a professora procurava novas atividades para ele manter-se quieto. Sempre torcia para que ele faltasse às aulas, para dar um pouco de sossego. Mas contrariando as secretas esperanças da professora, o Zé nunca faltava nem adoecia... Esse aluno mobilizava tanto essa professora a ponto da mesma se esmerar na elaboração de algo que o fizesse se interessar, ficar mais calmo, mas em vão... Chamava os pais e esperava ansiosamente ajuda externa para encaminhamentos a psicólogos, quem sabe... e a angústia crescia...
Até que surgiu o interesse do Zé pelo canto da carpintaria: ficou quietíssimo e mostrou-se conhecedor de cada ferramenta... Enfim, em paz a martelar, parafusar...!!! Concentrado em sua produção de aviãozinho de madeira. Depois Zé lhe contou que pai era carpinteiro... Ela não sabia dos seus interesses, artes, hábitos de vida... O comportamento não mudou de uma hora para outra, porém começou a se interessar mais pela escola e, através do canto da carpintaria, iniciou seus colegas na arte. O gosto pelas atividades veio pouco a pouco. Já era possível dialogar e fazer acordos.
A partir da leitura do texto, surgiram algumas questões, como:
  • Que sentimento o texto suscita?*
  • Porque as estratégias utilizadas pela professora não surtiram efeito desejado?
  • Como é um aluno ideal?
    Porque é importante conhecer a realidade do aluno, seus interesses e hábitos?
  • Como incluir sem excluir?
Essas questões serviram como norteadores para reflexão da prática pedagógica, considerando que cada educador já teve ou tem um “Zé” em sua sala de aula. São esses os apontamentos e as respectivas análises feitas pelo grupo:
1) Falta ver as potencialidades dos alunos – De um modo geral, o professor está muito envolvido na rotina estressante da sala que não percebe as potencialidades de aprendizagem de seus alunos. Para essa percepção deve haver mais aproximação física com os alunos, olhar para eles, falar com eles e conhece-los melhor, afinal.
2) Deve-se fazer um trabalho de sensibilização para (ou com) professores – Nota-se que são muito rígidos na proposta de ensinar, tanto no desenvolvimento e procedimentos pedagógicos, quanto no cumprimento das exigências burocráticas do sistema escolar. Há que se fazê-los mais flexíveis e sensíveis para os problemas que ocorrem na sala de aula. Talvez o modo de trabalhar essas questões, seja por meio de dinâmicas, brincadeiras, jogos em oficinas de vivências grupais, por exemplo.
3) Elaboração de atividades e materiais diversificados com objetivos claros- tanto para os professores quanto para os próprios alunos. A professora do Zé estava sempre a procura de algo para ele fazer, para se acalmar, ficar calmo e sentado: prática tão comum em nossas escolas, quando se trata de alunos agitados demais. Quando paramos e pesquisamos subsídios para elaboração de atividades específicas e diferenciadas, raramente ficamos sem saber os objetivos da proposta (para quê?, como fazer? Quando fazer?). Lembramos de STAINBACK e STAINBACK (1999:264) quando sugeriram que, para a devida participação e aprendizagem dos alunos, é necessário que os professores formulem algumas questões antes de elaborarem as atividades: 1. o aluno pode participar dessa aula da mesma maneira que os outros alunos? 2. o aluno é incapaz de participar plenamente sem acomodação, que tipos de apoios e/ou modificações são necessários? 3.  que expectativas devem ser modificadas para garantir a plena participação do aluno nessa aula? Essa parada nos faz pensar na prática cotidiana e, talvez, conhecer um pouco mais os alunos e finalmente nos faz, pouco a pouco, mudar em atitudes, posturas, ações e olhares para com eles. E mudança requer tempo.
4) Saber a realidade dos alunos – Não se trata de mera curiosidade ou constatação de algo que desconfiamos, mas sim de conhecer aspectos da vida dos alunos que possam servir de “ganchos” e dicas para propostas pedagógicas, aproveitamento de habilidades e interesses e para dinamizar e otimizar mais as aulas (entrevistas, pesquisas, roda da novidade, dramatização, jogos). Nessa perspectiva, os materiais que chegam às mãos dos professores estão sujeitos a análise e avaliação mais criteriosas. Essa ação depura a arte de planejar e de ensinar.
5)   A relação professor-aluno com afetividade – toda relação pedagógica é construída com base na intenção de ensino e de aprendizagem. Para isso, a afetividade é um elemento que deve estar permeando as interações, para que outras questões possam emergir e sejam trabalhadas como limites, disciplina, participação, colaboração, entre outras. Num sentido mais amplo, a relação pedagógica é o contato interpessoal gerado entre todos os intervenientes de uma situação pedagógica e o resultado desses contatos. Parece-nos evidente que não há relação pedagógica se não houver mediação pelo saber (primeiro condicionante da relação pedagógica) e pelas condições que a instituição escolar cria para que essa transmissão e apropriação se formalizem (ESTRELA, 1992:34).
6)  Falta estrutura para professores lidarem com suas angústias – estrutura interna, própria de cada pessoa em relação ao outro, sobretudo se este outro é o diferente. São sentimentos de aceitação e acolhimento, uma forma de lidar com suas próprias fraquezas e incapacidades. A estrutura externa seria um suporte e/ou apoio técnico-pedagógico ou, em alguns casos, alguém para escutar esses sentimentos que angustiam. Existem queixas sobre a dificuldade em encontrar espaço e tempo (e pessoas!) para essa escuta. Há uma falha (não culpa) no desempenho dos papéis de coordenadores e gestores das unidades escolares quando não consideram essas solicitações. Quanto ao suporte técnico pedagógico, existe uma equipe multidisciplinar que faz assessoria nas escolas, porém o quadro de profissionais se torna pequeno em comparação ao número de unidades atendidas. Nessa assessoria é possível acontecer a escuta, e além disso, orientações, recomendações, encaminhamentos, acompanhamentos dos casos e, quando necessário, faz-se um trabalho junto às famílias.
7) O papel dos professores em sala de aula é pedagógico – Não é para ser diferente, embora existam queixas sobre os vários papéis forçosamente exercidos em sala de aula pelos professores: pais, enfermeiros, psicólogos, padres (“para exorcizá-los”!). A escola é um organismo vivo e, nesse sentido, a sala de aula deve ser dinâmica e heterogênea para ser considerada e silenciosa, isenta de problemas, dificuldades e conflitos 100% do tempo. Os alunos são da escola e os professores não devem tomar para si próprios toda a carga de responsabilidades. Os problemas devem ser compartilhados com os outros elementos envolvidos na educação. Há a necessidade de implicar a família nessa história como parceira, que pode auxiliar e não prejudicar. Deve-se estabelecer vínculos, resgatar os pais e fazê-los pertencer à escola. Para isso, devem encontrar os portões abertos para os diálogos e escuta. Deve-se estabelecer uma relação de confiança mútua. Assim, os professores exercem seu papel, dando maior atenção àqueles alunos com maiores dificuldades.
8)  Falta organização escolar para otimizar espaços e tempos – Para executar seu trabalho de forma dinâmica e significativa, os professores devem ampliar seus espaços de aprendizagem e explorar novos ambientes. O tempo é exíguo e fechado em si mesmo por conta das rotinas e cumprimentos de exigências burocráticas (internas e externas).
9)  Incluir sem excluir – questão muito debatida e recorrente em muitos encontros de educadores. A dificuldade está em trabalhar com os alunos considerados diferentes, de modo a evitar excluí-los do grupo e do contexto. Inclusão escolar não se refere apenas aos alunos com deficiências (intelectual, auditiva, física e visual), mas a uma gama de educandos com características e necessidades específicas, que requerem atenção mais individualizada, bem como de atividades diferenciadas. Não excluí-los é, sem querer ser simplista demais, considerar as particularidades do grupo, na sua diversidade, gerenciando conflitos, problemas e carências que advém da heterogeneidade.
Embora, tivéssemos pouco tempo para trabalhar melhor os aspectos apontados pelos educadores, conseguimos fazê-los refletir sobre seus próprios papéis exercidos no espaço escolar. Fizemos algumas recomendações gerais, reforçando a necessidade de mudança, em todos os sentidos possíveis: se como está sendo feito, o trabalho não mostra resultado positivo, então se deve mudar o ângulo da condução do mesmo para visualizar algum aspecto mais claro, que dê a certeza de valer a pena continuar tentando. A inovação e mudança surgem dessas tentativas. Ter ou não ter um “” em sala de aula faz com que pensemos nas reais necessidades de nossos alunos, para propor algo que os faça participar e aprender. Se os alunos aprendem, os professores também. Se os professores mudam para melhor, os alunos também.

Referências bibliográficas:
ESTRELA, Maria Teresa. Relação Pedagógica, disciplina e indisciplina na aula. Porto (Coleção Ciências da Natureza 2), 1992.
MAGALHÃES, Rita de Cássia B.P. (org.) Reflexões sobre a diferença. Fortaleza: Ed.Demócrito Rocha, 2003.
STAINBACK, S e Stainback, W. Inclusão. Porto Alegre: Artmed, 1999.
Texto trabalhado: “Tenho um Zé, em minha sala de aula” de Flaviana M. Granzotta – extraído de uma apostila sobre Afetividade.

Como se resolve a indisciplina?

Não há solução fácil. Mas é essencial trabalhar - como conteúdos de ensino - as questões relacionadas à moral e ao convívio social e criar um ambiente de cooperação

Anderson Moço (novaescola@fvc.org.br). Colaborou Thais Gurgel
Agir na hora certa e sempre manter a calma 

Mesmo que você aja da forma mencionada nos itens anteriores, em momentos conturbados na sala você tem de manifestar desagrado com relação a comportamentos inadequados. Quando um aluno insiste em conversar sobre o fim de semana durante a explicação de uma atividade, não basta fazer pequenas mudanças, como colocar a carteira do bagunceiro ao lado da sua mesa, como forma de castigá-lo, e continuar a aula normalmente. Isso não ajuda a resolver o problema em si nem leva a turma a aprender. É preciso chamar a atenção, mas sempre com respeito e mostrando que o grupo é que está sendo prejudicado, e não apenas você, pessoalmente. Tratar o estudante dessa forma faz com ele também perceba como agir em momentos de conflito.

Ficar alerta porque a indisciplina nunca acaba 

Esse trabalho não tem fim. Mesmo que a equipe já esteja atenta e capacitada para encarar a indisciplina sob esse prisma mais amplo, é preciso manter o tema vivo. Primeiro porque a escola está sempre em movimento. A cada ano, chegam novos professores e alunos, que podem não estar alinhados com essa visão. Segundo porque diferentes casos de indisciplina vão continuar aparecendo.

A Escola Ativa de Itapira, a 174 quilômetros de São Paulo, já nasceu tendo como um dos seus objetivos o desenvolvimento moral dos alunos. A equipe é formada dentro dessa linha, mas isso não a isenta de situações de mau comportamento, como a que aconteceu com os alunos da 5ª série, que estavam mentindo para o grupo de professores (leia quadro abaixo).
Mais interação
O problema Em 2006, a Escola Ativa, em Itapira, a 174 quilômetros de São Paulo, estava abrindo a 5ª série, com 12 alunos, que lá estudavam desde a 1ª. O fato de a turma ser pequena, que parecia uma vantagem, se tornou um problema. O adolescentes se comunicavam pelo olhar. Conversavam em aula e começaram a mentirpara os professores. A um, diziam que haviam feito tal combinado com outro, o que não era verdade.
A solução A equipe se reuniu e definiu novas pautas de estudo. "Tivemos de melhorar a interação entre os professores e acordamos novas regras e o que não poderia ser negociado", explica a diretora, Andrea Stevanatto Bataglini. Debates foram realizados com a turma e os dilemas morais ganharam mais espaço nas aulas. A relação entre professores e alunos foi revista, de modo a levar os estudantes a pensar se estavam agindo moralmente com quem lhes respeitava. "Hoje eles estão no 9º ano e a situação nunca mais se repetiu", conta Andrea.

Calvin e seus amigos
PRESERVE A AUTORIDADE
Em vez de resolver a questão, a professora de Calvin transfere o problema para o diretor que tinha muito menos condições do que ela de intervir na situação

fonte: http://revistaescola.abril.com.br/formacao/formacao-continuada/como-resolve-indisciplina-autoridade-moral-convencao-cooperacao-autonomia-503230.shtml?page=5


|<<Página 6 de 7>>|



terça-feira, 31 de março de 2015

A IMPORTÂNCIA DO PLANEJAMENTO PEDAGÓGICO



Planejar é pensar sobre aquilo que existe, sobre o que se quer alcançar, com que meios se pretende agir. (OLIVEIRA. 2007. p.21).
A ação de planejar acompanha o homem desde os primórdios da evolução humana. Algumas pessoas planejam suas ações desde as mais simples até as mais complexas, na tentativa de transformar e melhorar suas vidas ou até das pessoas que as rodeiam. Não é apenas na vida pessoal que as pessoas planejam suas ações, o planejamento atinge várias esferas sociais. Mas, se o ato de planejar é tão importante, porque alguns ainda resistem em aceitar este fato, principalmente no contexto educacional? 

Diante desse questionamento é importante considerar que o planejamento educacional é um instrumento orientador de todo o processo educativo, pois constitui e determina as grandes necessidades, indica as prioridades básicas, ordena e determina todos os recursos e meios necessários para atingir as grandes finalidades da educação.
A educação, a escola e o ensino são os grandes meios que o homem busca para poder realizar o seu projeto de vida. Portanto, cabe à escola e aos professores o dever de planejar a sua ação educativa para construir o seu bem viver. (MENEGOLLA & SANT’ANNA, 2001, p.11).
Neste sentido, fica notória a importância tanto da escola como também dos professores na formação humana. Assim sendo, todas as ações educativas devem ter como perspectiva a construção de uma sociedade consciente de seus direitos e obrigações, sejam eles individuais ou coletivos. 

No entanto, apesar do planejamento escolar ser de grande importância, há professores que são negligentes na sua prática educativa, utilizando de improvisações para a realização de suas atividades em sala de aula.
A ausência de um processo de planejamento de ensino nas escolas, aliado às demais dificuldades enfrentadas pelos docentes do seu trabalho, tem levado a uma contínua improvisação pedagógica das aulas. Em outras palavras, aquilo que deveria ser uma prática eventual acaba sendo uma “regra”, prejudicando, assim, a aprendizagem dos alunos e o próprio trabalho escolar como um todo. (FUSARI, 2008, p.47) 
Segundo Moretto (2007, p.100), existe, ainda, a crença que a experiência do professor já é suficiente para ministrar aulas com competência. Professores com este pensamento ignoram a função do planejamento bem como asua importância. Outro aspecto que vem influenciando o ato de planejar são os materiais didáticos ou as instruções metodológicas para os professores que acompanham estes materiais.
Muitas vezes os professores trocam o que seria o seu planejamento pela escolha de um livro didático. Infelizmente, quando isso acontece, na maioria das vezes, esses professores acabam se tornando simples administradores do livro escolhido. Deixam de planejar seu trabalho a partir da realidade de seus alunos para seguir o que o autor do livro considerou como mais indicado. (BRASIL, 2006, p. 40).
O planejamento, de modo geral, tem sido considerado como uma transcrição para o papel de uma ideia e não como um processo que requer reflexão em relação à realidade em que se inserem os alunos e a própria escola. Para que a partir deste ponto busque-se a mudança da prática.
Mudar a mentalidade de que fazer planejamento é preencher formulários (mas ou menos sofisticados). Antes de mais nada, fazer planejamento é refletir sobre os desafios da realidade da escola e da sala de aula, perceber as necessidades, re-significar o trabalho, buscar formas de enfrentamento e comprometer-se com a transformação da prática. Se isto vai para um plano escrito depois, é um detalhe! (VASCONCELLOS, 1995. p. 59).
É fundamental quebrar o paradigma de que o planejamento é um ato simplesmente técnico. Este não pode ser visto como uma obrigação, algo que é exigido apenas por burocracia, mas como um eixo norteador na busca da autonomia, na tomada de decisões, nas resoluções de problemas e nas escolhas dos caminhos a serem percorridos. 

O importante é salientar que o planejamento sirva para o professor e para os alunos, que ele seja favorável e funcional a quem se destina, através de uma ação consciente e responsável, desconsiderando a noção de planejamento como uma receita pronta, pois cada sala de aula é uma realidade diferente, com problemas e soluções diferentes. Nesse sentido, cabe ao professor, em conjunto com os demais profissionais da escola, adaptar o seu planejamento,para que assegure o bom desenvolvimento a que ele se propõe, que é o de guiar as práticas docentes em sala de aula.



REFERÊNCIAS:

BRASIL. MEC – Ministério da Educação e Cultura. Trabalhando com a Educação de Jovens e Adultos – Avaliação e Planejamento – Caderno 4 – SECAD – Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade – 2006.

FUSARI, José Cerchi. O planejamento do trabalho pedagógico: algumas indagações e tentativas de respostas. Disponível em: <http://www.crmariocovas.sp.gov.br/pdf/ideias_08_p044-053_c.pdf.> Acesso em 10/110/2012.

LIBÂNEO, José Carlos, Didática. São Paulo. Editora Cortez. 1994

MENEGOLLA, Maximiliano. SANT’ANNA, Ilza Martins. Por que planejar? Como planejar? 10ª Ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001.

MORETTO, Vasco Pedro. Planejamento: planejando a educação para o desenvolvimento de competências. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007.

OLIVEIRA, Dalila de Andrade. Gestão Democrática da Educação: Desafios Contemporâneos. 7ª edição. Petrópolis, RJ. Editora Vozes.

VASCONCELLOS, Celso dos Santos. Planejamento: Projeto de Ensino Aprendizagem e Projeto Político Pedagógico. 7ª edição. São Paulo 2000. Editora Liberdad.

Créditos da imagem: http://www.papelariatributaria.com.br/blog/artigos/educacao-infantil-ganha-assessoria-tecnica-pedagogica/

Planejamento escolar

Celso dos Santos Vasconcellos fala sobre planejamento escolar

Especialista critica a burocracia e diz que o coordenador pedagógico deve se aliar a outros colegas para não se sentir sozinho

celso vasconcellos planejamento
Foto: Rodrigo Eribe 
Celso dos Santos Vasconcellos já foi professor, coordenador pedagógico e gestor escolar. Ao longo de sua extensa carreira de educador, participou de inúmeros processos de planejamento nas escolas e gosta de dizer que aprendeu muitas lições. "Às vezes, há uma tentação enorme de ficar gastando tempo com problemas menores, quase sempre da esfera administrativa ou burocrática. Justamente por isso é tão importante planejar o planejamento", afirma. Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo, mestre em História e Filosofia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e autor de diversos livros sobre esse assunto, o especialista fala na entrevista a seguir a respeito dos meandros do processo de elaboração das diretrizes do trabalho da escola. 


Por onde se deve começar um bom planejamento? 
CELSO VASCONCELLOS Depende muito da dinâmica dos grupos. Existem três dimensões básicas que precisam ser consideradas no planejamento: a realidade, a finalidade e o plano de ação. O plano de ação pode ser fruto da tensão entre a realidade e a finalidade ou o desejo da equipe. Não importa muito se você explicitou primeiro a realidade ou o desejo. Então, por exemplo, não há problema algum em começar um planejamento sonhando, desde que depois você tenha o momento da realidade, colocando os pés no chão. Em alguns casos, se você começa o ano fazendo uma avaliação do ano anterior, o grupo pode ficar desanimado - afinal, a realidade, infelizmente, de maneira geral, é muito complicada, cheia de contradições. Às vezes, começar resgatando os sonhos, as utopias, dependendo do grupo, pode ser mais proveitoso. O importante é que não se percam essas três dimensões e, portanto, em algum momento, a avaliação, que é o instrumento que aponta de fato qual é a realidade do trabalho, vai aparecer, começando o planejamento por ela ou não. 

É possível realizar um processo de ensino e aprendizagem sem planejar? 
VASCONCELLOS É impossível porque o planejamento é uma coisa inerente ao ser humano. Então, sempre temos algum plano, mesmo que não esteja sistematizado por escrito. Agora, quando falamos em processo de ensino e aprendizagem, estamos falando de algo muito sério, que precisa ser planejado, com qualidade e intencionalidade. Planejar é antecipar ações para atingir certos objetivos, que vêm de necessidades criadas por uma determinada realidade, e, sobretudo, agir de acordo com essas ideias antecipadas. 


Em alguns contextos, o planejamento ainda é encarado como um instrumento de controle? 
VASCONCELLOS Sim, em algumas escolas e redes, ele ainda é um instrumento burocrático e autoritário. Em um sistema autoritário, o planejamento é uma arma que se volta contra o professor porque o que ele disser - ou alguém disser por ele - que vai ser feito tem que ser cumprido. Caso contrário, ele foi incompetente. E, nem sempre, conseguimos fazer o que planejamos. Por diversas razões, inclusive por falha nossa, mas não unicamente por isso. No entanto, o movimento da sociedade e o processo de redemocratização têm favorecido o conceito de planejamento como real instrumento de trabalho e não como uma ferramenta de controle dos professores. 



Qual a relação entre o planejamento e o projeto político pedagógico? 
VASCONCELLOS Nesse processo de planejar as ações de ensino e aprendizagem, existem diversos produtos, como o projeto político pedagógico, o projeto curricular, o projeto de ensino e aprendizagem ou o projeto didático, que podem ou não estar materializados em forma de documentos. O ideal é que estejam. Quando falamos do planejamento anual das escolas, temos como referência o projeto político pedagógico. 

É possível fazer um planejamento sem conhecer o projeto político pedagógico da escola?
VASCONCELLOS
 Um projeto, a escola sempre tem, mesmo que ele não esteja materializado em um documento. Agora, o ideal é que esse projeto seja público e explicitado. Na hora do planejamento anual, ele deve ser usado como algo vivo, como um termômetro para toda a comunidade escolar saber se o trabalho que está sendo planejado está se aproximando daqueles ideais políticos e pedagógicos ou não. 

Como evitar que o tempo dedicado ao planejamento anual não seja desperdiçado?
VASCONCELLOS Nas escolas, o coordenador pedagógico é o responsável por esse processo. É preciso prever momentos específicos para cada tipo de assunto e ser firme na coordenação. Às vezes, há uma tentação muito grande em ficar gastando tempo do planejamento com problemas menores, administrativos ou burocráticos. Então, é muito importante planejar o planejamento, reservando momentos específicos para cada assunto, e ser rigoroso no cumprimento dessa organização. Ele precisa ser um coordenador pedagógico forte, mas onde buscar apoio para se fortalecer? Em alguns casos, há o apoio da direção, mas é muito importante que ele faça parte de um grupo com outros profissionais no mesmo cargo para trocar experiências e sentir que não está sozinho nesse trabalho. 



Com que frequência as ações do planejamento anual devem ser revistas pela equipe? 
VASCONCELLOS Eu insisto muito na reunião pedagógica semanal. Na minha opinião, esse encontro não deve ser por área, e sim com todos os professores daquele ciclo, daquele período. Se todos os professores, por exemplo, do ciclo II do Ensino Fundamental do período da manhã estão presentes no mesmo momento, em um dia fixo da semana, no período da tarde, durante cerca de duas horas, o coordenador pedagógico pode montar reuniões por área, ou por nível ou gerais, conforme as necessidades. Esse momento de encontro é imprescindível para planejar um trabalho de qualidade com coerência entre os professores. Além de ser um momento de socialização. Existem professores que descobrem coisas excelentes que vão morrer com ele porque não foram sistematizadas nem ele compartilhou aquelas descobertas. E, na hora do planejamento, há a possibilidade de reservar um momento para isso. 



Existe algum momento que deve ser planejado com mais cuidado? 
VASCONCELLOS Sim, as primeiras aulas. Principalmente das séries iniciais. Existem estudos que mostram que a boa relação professor/aluno pode ser decidida nessas aulas. Há pesquisas que vão além e apontam os primeiros instantes da primeira aula como determinantes do sucesso da atividade docente. Então, se o professor tem de preparar bem todas as aulas, as primeiras precisam de mais cuidado. E não é só determinar os conteúdos a ser abordados, os objetivos a atingir e a metodologia mais adequada. É, sobretudo, se preparar, tornar-se disponível para aqueles alunos, acreditando na possibilidade do ensino e da aprendizagem, estando inteiramente presente naquela sala de aula, naquele momento.

Novo Piso Salarial 2024

  A luta está em torná-lo  real no holerite dos profissionais