terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Revista Escola Pública





Ano V- Número 36- Dezembro de 2013/janeiro 2014
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Boas práticas

Boas práticas

Do debate à ação


A partir de instrumento de avaliação da educação infantil, rede transforma ensino com definição de seu programa pedagógico, planejamento, participação das famílias e valorização dos professores


Svendla Chaves

Organização e engajamento: esses foram os dois principais trunfos da Secretaria de Educação e Esporte de Trombudo Central (SC) para reformular as práticas de ensino da rede municipal. As mudanças, iniciadas em 2009 na educação infantil, se disseminaram para o fundamental e provam que, com planejamento contínuo das atividades e do envolvimento de profissionais e comunidade, é possível obter bons resultados.

Com 6.900 habitantes e pouco mais de um século de história - a cidade foi fundada em 1904 por imigrantes alemães e austríacos -, Trombudo Central é um município agrícola que hoje tem sua economia ligada também à mineração. A integração regional foi fundamental para a renovação pedagógica posta em prática nos últimos quatro anos. A inspiração surgiu da participação no Fórum Regional de Educação Infantil do Alto Vale do Itajaí (Freiavi), entidade ligada à associação local de municípios e articulada com o Fórum Catarinense de Educação Infantil.

"O tema de estudo no Freiavi em 2009 era o conjunto de Indicadores da Qualidade na Educação Infantil elaborado pelo MEC", conta a coordenadora pedagógica Glaucia Jaqueline Bodemuller Marcelino, que à época estava à frente da educação infantil do município. Os indicadores são um instrumento de autoavaliação que permite às instituições analisar, com a participação da equipe e da comunidade, a qualidade das atividades desenvolvidas. Além da ferramenta, palestras orientaram os participantes do Freiavi. "Essa troca de experiência com outros municípios trouxe um ganho muito importante."

A avaliação institucional englobou aspectos pedagógicos, estruturais e administrativos, com a participação de pais e professores por meio de reuniões realizadas em cada escola. Os indicadores utilizam um sistema de cores, semelhante às do semáforo, para indicar a situação de cada ponto avaliado. "O diagnóstico apontou que nossa rede era vermelha", lembra Glaucia. 

Segundo a secretária de Educação, Cátia Regina Marangoni Geremias, o maior desafio foi ter a coragem de realizar a avaliação. "Ouvimos muita coisa. As principais dificuldades encontradas eram que as creches não tinham currículo definido e os professores não passavam por formação continuada." Outros pontos negativos eram a desmotivação dos professores e a falta de acompanhamento dos pais, que não recebiam avaliações das crianças.

Hora da virada
O ano de 2010 foi decisivo para a renovação da educação infantil trombudense. A avaliação institucional já apontava os aspectos que deveriam ser melhorados e um programa emergencial foi criado para pautar o planejamento pedagógico, de forma a tirar da educação infantil o caráter assistencialista que assumia até aquele momento. O objetivo era oferecer às crianças ações pedagógicas adequadas a cada faixa etária, promovendo seu desenvolvimento por meio de metodologias e práticas intencionais.

"Começamos com encontros mensais de estudo", relata a professora Simone Deves Venturi, do Centro de Educação Infantil Arthur Kroenke, que atende 75 crianças de 4 a 6 anos em período integral na região central da cidade. "A educação infantil passou a ser vista como a primeira etapa da Educação Básica, com um currículo com objetivos e conteúdos para todas as idades", explica Simone. A proposta pedagógica da rede municipal foi construída coletivamente em um processo que durou oito meses, sendo estudada e aprovada por professores e gestores. Também garantiu autonomia às unidades para desenvolver seus projetos e sequências didáticas. 

Além da criação dos Projetos Político-Pedagógicos, que são reavaliados anualmente também com representantes da comunidade, outras ferramentas foram introduzidas no dia a dia das escolas para sanar as carências inicialmente detectadas. Já em 2010 os pais receberam pela primeira vez um documento formal de avaliação de seus filhos menores de 6 anos. O portfólio, como é chamado, serve de registro e avaliação do desenvolvimento da criança. Simone diz que assim a família pode acompanhar a evolução dos pequenos. "Todas as crianças, mesmo os bebês, têm seu portfólio, que conta com fotos e descrição das atividades."

No último ano, um novo instrumento começou a incrementar a relação com as famílias: a Escola de Pais. Criada com o objetivo de sistematizar muitas ações já existentes nos centros educacionais, a iniciativa conjuga as particularidades de cada unidade com o projeto de ensino do município. Em encontros semestrais em formato de reunião ou palestra, as famílias são chamadas a discutir temas relacionados à formação das crianças e adolescentes - a prática se dá também nas escolas do ensino fundamental. 

Simone afirma que é um processo lento fazer os pais acreditarem que a educação infantil não deve ser simplesmente assistencialista, mas acredita que a participação dos pais tem sido crescente. "Realizei em aula uma atividade sobre os avós e sua importância na formação de valores - tivemos quase 100% de participação das famílias." A secretária Cátia Geremias diz que é desafiador chamar a família para a escola em um momento no qual a educação tem sido deixada somente a cargo das instituições de ensino. "Escola e família precisam dar as mãos para promover o desenvolvimento dos alunos."

Reconhecimento 
Outro ponto importante na qualificação da rede tem sido a valorização profissional do magistério. Somados à formação continuada, dois aspectos são considerados como grandes conquistas pelos professores de toda a rede e serviram para motivar seu trabalho: a efetivação da hora-atividade e da avaliação funcional. 

A hora-atividade, correspondente a 20% da carga horária dos professores, saiu da legislação para a prática. Passou a ser garantido aos professores da rede um período inteiro (turno ou dia, conforme regime horário) para formação, planejamento e registro semanal. Em 2014, será elevado a 33% da carga horária. Já a avaliação funcional, prevista no Plano de Carreira do magistério desde 2000, passou a ser realizada em 2010 por meio de comissão estabelecida pelos pares e de registros formais, considerando três níveis de análise: pelos gestores, pelos subordinados e autoavaliação. "Ao final de três anos de avaliação de desempenho, prova de títulos e uma avaliação de  conhecimento, o funcionário que totalizar a média exigida tem um aumento no salário-base de 3,5%. Essa progressão acontecerá neste ano de 2013", explica a secretária. As dimensões avaliadas são: assiduidade e pontualidade, qualidade e produtividade, iniciativa e criatividade, zelo pelos recursos e interação com a comunidade escolar e a instituição.
Professores contratados também são avaliados, com o intuito de aprimorar o processo de ensino-aprendizagem e elevar  o nível de qualidade de ensino.

Oferecida a todos os professores da rede municipal, a formação continuada é vista como espaço de embasamento teórico e de trocas de experiência, e seus temas são baseados no interesse dos docentes e nos aspectos em que eles apresentam mais dificuldade. Embora alguns cursos sejam realizados no período noturno, como a capacitação do programa Alfabetização na Idade Certa, boa parte das atividades é oferecida com alternância de turnos, para que todos os professores possam participar. A prática da hora-atividade é fundamental para promover essa participação. Também acontece, com periodicidade mensal, a formação de gestores. 

Novos horizontesMuitas das novidades instituídas na educação infantil também foram aplicadas no ensino fundamental, proporcionando o avanço de toda a rede. O Centro de Educação Básica (CEB) Erica Hasse, que fica em um bairro afastado do centro de Trombudo Central, às margens da rodovia BR 470, iniciou suas mudanças com uma avaliação institucional feita com a participação de professores, funcionários e famílias. A escola atende 204 alunos de famílias de baixa e média renda, em sua maioria formada por trabalhadores do campo e mineradores, e, apesar de se encontrar em área com diversas moradias, é a única unidade ainda considerada rural no município. Até o ano passado o CEB contava também com educação infantil, modalidade que foi absorvida em 2013 por outra unidade da região. "Os pais se sentem valorizados por participar", conta a diretora Maria Marlete Marcelino.

A partir desse primeiro estágio, diversas ações foram estabelecidas, como o plano de metas pedagógicas e financeiras e a criação de uma cartilha com informações sobre a estrutura e as ações realizadas no Centro. Também houve implantação do Conselho Escolar, que conta com cinco conselheiros para deliberar sobre as ações, principalmente em relação aos alunos. Além da Escola de Pais, Maria Marlete destaca a importância do Dia da Família na Escola, que tem apresentado grande resultado. "Vemos que as crianças começaram a caprichar mais nos trabalhos, pois se sentem valorizadas com a presença dos pais."

Os principais ingredientes para a renovação pedagógica foram a dedicação e o engajamento dos profissionais de educação e da comunidade. "O projeto não demandou recursos além do orçamento previsto pelo município, apenas passamos a utilizar as ferramentas de outra forma. O que mudou foi o nosso olhar sobre certas questões", defende a secretária Cátia.

Segundo ela, houve um gradativo processo de encantamento, que começou pelos coordenadores pedagógicos e depois conquistou os professores. Cátia explica, por exemplo, que apesar da realização de pequenos reparos nas escolas ainda há muito a fazer na modernização da infraestrutura, em razão do aumento do número de alunos.

Segundo ela, o maior crescimento foi na maturidade da equipe, que apresentou comprometimento com a proposta. "Seria impossível fazer isso sem eles", lembra Cátia. Para a professora Simone Venturi, todo mundo tem medo de mudar: "eu mesma achei que não iria conseguir seguir a proposta e fazer as sequências didáticas; hoje tudo parece muito fácil. Foi um processo difícil de mudança, mas é muito bonito ver o seu resultado".

http://revistaescolapublica.uol.com.br/textos/36/do-debate-a-acao-302318-1.asp 

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